quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Reflexões para além da Sala de Aula


No cotidiano da cultura escolar foram associadas tarefas que uma singela hierarquia entre professores e alunos estabeleceu como padrão de conduta em que os educadores orientam, cobram e seus discentes  respondem com seus afazeres prontos. A esse processo não podemos caracterizar como uma troca, pois o entendimento que se pode ter por troca é de transmissão, ato ou efeito de substituir um elemento por outro. Mas poderíamos caracterizar essa relação no processo de ensino aprendizagem como uma interação social em que ambas as partes possuem o entendimento de que precisam um do outro.

A escola, portanto, constrói no cerne da sociedade uma estrutura que estabelece não somente relação de poder, mas um importante espaço onde se efetiva uma boa parte das relações sociais.  A partir dessa diretriz podemos propor que esse construto pode abarcar uma serie de atitudes discriminatórias amparadas por preconceitos de varias espécies como de cor, raça, gênero e denominação religiosa.

Mas qual seria então a solução para tratar dessas questões que por sua vez permeiam a realidade escolar quando diz respeito ao enfrentamento de problemas que estão enraizados em nossa história desde os tempos em que nosso território era colônia de exploração? Como conduzir uma estrutura educacional que no passado a até mesmo atualmente é preparada para normatizar o sujeito?

Se levarmos em consideração que essas questões pontuadas acima somatizam o anseio de uma diversidade de jovens que entram e saem das instituições educacionais com uma variedade curricular que não responde as evasões, desistências e necessidades particulares de alguns atores sociais que tentam fazer parte do mundo e da cultura escolar em nosso país perceberemos que a educação alcançou seus limites em uma crise que parece ser duradoura.


Estilos de Aprendizagem
As dimensões que podem medir a capacidade de cada sujeito no processo de aprendizagem dependem e muito da forma como esse sujeito é percebido no processo educativo. Mas se aceitarmos que vivemos em um sistema educacional frágil que falha ao agrupar os indivíduos em uma única dimensão de estilo aprendizagem, supondo que todos  necessariamente aprendem de forma padronizada, então nós como educadores também falhamos com os nossos educandos.  De acordo com a Alexandra Czepula “Um aluno tem um estilo de aprendizagem predominante, mais marcante”.
Um professor precisa conhecer seu estilo de aprendizagem para saber o que fazer com o conhecimento de suas potencialidades. Essa é uma possibilidade que certamente pode orientar os discentes de maneira que estes também possam desenvolver suas habilidades conhecendo seus pontos fortes e aprendendo a lhe dar com as competências que os mesmos consideram por vezes de difícil acesso.  Com base nessa questão a pesquisadora Alexandra Czepula construiu uma apresentação a qual descreve os estilos de aprendizagem proposto por Honey-Alonso, os estilos apontados pelo autor correspondem a uma serie de perguntas que compõe questionários que são utilizados como instrumento de pesquisa a fim de proporcionar a  qualquer sujeito conhecimento sobre suas próprias características no que diz respeito ao seu estilo de aprendizagem. É um teste interessante, mas que nos faz refletir sobre percepções a respeito de nós mesmos que até então possivelmente nunca teriamos analisado antes. Abaixo seguem os resultados dos meus testes e os links para quem se interessar em compreender melhor o universo de ensino aprendizagem.

Meus resultados no teste de inteligência:

Linguística - 30
Lógica-Matemática – 26
Musical - 33
Cinestésica-Corporal - 28
Espacial-Visual - 26
Interpessoal - 34
Intrapessoal – 30

Meus resultados de estilos de aprendizagem:
Ativo = 11; Reflexivo = 19; Teórico = 13; Pragmático = 16

No final compartilham seus resultados.

Segue o link do Questionário Honey-Alonso de Estilos de Aprendizagem.
Depois de responder clicar no fim em calcular os valores. Interpretar e compartilhar.


Link direto da apresentação sobre estilos de aprendizagem:

terça-feira, 8 de novembro de 2016

VISITA AO QUILOMBO

A Educação formal veicula um tipo de conhecimento desconsiderando e invalidando outros saberes. Reconhecendo como legitimo apenas a cultura escrita uma característica própria do racionalismo. Assim todas as instituições de ensino possuem moral, ética e valores que são construções sociais.

Mas pensando nas categorias que acoplam varias culturas em sua moldagem a exemplo da: língua e fenótipo,  percebemos que esse padrão estabelecido para normatização da Educação formal é contraditório  a ideia da diversidade e não responde a questões como: qual a maneira mais adequada de tratar a diversidade populacional  e cultural existente nas comunidades e grupos que compõe a população brasileira se cada comunidade e/ou grupo possuem suas particularidades baseadas no conhecimento adquirido a partir de suas trajetórias históricas?

Não considerar os saberes acumulados a ponto de rotular os mesmos como menos importante do que já foi reconhecido através da cultura escrita torna – se um perigo no que diz respeito a não valorização  das potencialidades relacionadas a construção do conhecimento, principalmente quando se fala em conceitos sociológicos que dizem respeitos a auto-afirmação, identidade, valorização da auto-estima, pertencimento.

Ao visitar o Quilombo observei o quanto da nossa história enquanto população brasileira ainda não foi contada e foi escondida através de contos construídos a fim de padronizar a população brasileira. Talvez a intenção fosse justamente não permitir que os sujeitos se fortalecessem junto as suas potencialidades oriundas de suas próprias raízes.

A escrita dessa postagem não possui a intencionalidade de fazer juz ao descobrimento das verdades que nos foram escondidas, pois mesmo que tentasse não conseguiria escrever todo aprendizado dessa experiência singular ao visitar esse espaço de construção e valorização do conhecimento vivenciado, experienciado pelas lentes do campo. Porém dentre alguns recortes buscarei relatar as observações alcançadas durante a visita.

Atualmente se você perguntar a uma criança de dez anos de idade que frequenta uma escola e cursa o 5º ano do Ensino Fundamental e que nunca visitou uma Comunidade Quilombola sobre  o que ela pensa ser um Quilombo possa ser que a mesma responda baseada em uma rápida pesquisa no Google e descreva um Quilombo como uma das figuras que estão nas imagens mostradas dessa forma: 
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Mas se ao invés das imagens mostradas acima mostrássemos imagens como essas:


Fonte: acervo pessoal, 2016. Santiago do Iguape - Cachoreira

Fonte: acervo pessoal, 2016. São Francisco do Paraguaçu - Roqueirão

Fonte: visita de campo, 2016. Convento Santo Antonio/ São Francisco do Paraguaçu 

Fonte: visita de campo, 2016. Santiago do Iguape - Cachoeira

Fonte: visita de campo, 2016. Alto do Cruzeiro - Acúpe - Santo Amaro 

Fonte: visita de campo, 2016. Alto do Cruzeiro - Acúpe - Santo Amaro 

Fonte: acervo pessoal, 2016. São Francisco do Paraguaçu - Roqueirão


Fonte: acervo pessoal, 2016. São Francisco do Paraguaçu - Roqueirão


Fonte: visita de campo, 2016. Alto do Cruzeiro - Acúpe - Santo Amaro 

Fonte: visita de campo, 2016. Santiago do Iguape - Cachoeira


As Comunidades Remanescentes de Quilombo de acordo com a Unidades de Conservação no Brasil (ISA) é uma concretização das conquistas da comunidade afro descendente no Brasil, fruto das várias e heroicas resistências ao modelo escravagista e opressor instaurado no Brasil colônia. Uma categoria social relativamente recente, representante de uma força social relevante no meio rural brasileiro, dando nova tradução àquilo que era conhecido como comunidades negras rurais. 

De acordo com as autoras PARÉ,OLIVEIRA e VELLOSO os pontos cruciais dessas lutas dizem respeito a:
  • Reconhecimento oficial pelo estado brasileiro que aconteceu em 1988 (um século após o fim da escravidão) 
  • Afirmação dos direitos territoriais 
  • Inserção cidadã 
  • O fazer pedagógico junto a comunidade quilombola 
  • Sistema de autonomia e interdependência  
  • Construção sociocultural adaptada ao meio  
  • Valorização do ensino formal na comunidade quilombola 
  • Autoestima dos alunos quilombolas (como eles se sentem?) 
Luta que tem como bandeira pilares como:
  • Resistência Negra 
  • Manutenção da tradição
  • Vínculos de parentescos (unicidade familiar, percepção de pertencimento a troncos familiar  específicos)
  • Transmissão dos conhecimentos adquiridos (aprendizado cotidiano a partir da experiência dos mais velhos)
  • Dialogo entre diferentes saberes 
As Comunidades Quilombolas continuam sendo referência na luta contra as desigualdades sociais impostas a população negra. Encontramos nos territórios quilombolas atualmente muitos jovens que saem de suas localidades para enfrentar o mercado de trabalho e as Universidades Públicas a fim de se prepararem para exercer sua cidadania, mas que apenas uma folga voltam para suas raízes para estar ao lado dos seus como se nunca tivessem saído. Porque  infelizmente para essas pessoas  os campos universitários não são implantados no distrito em que nasceram. Essa é uma das realidades que foi possível observar na visita de campo que realizei no dia 11 de outubro de 2016 em alguns distritos do Município de Cachoeira e de Santo Amaro da Purificação na Bahia. 

Visitamos lugares como: Convento Santo Antonio e São Francisco do Paraguaçu que pertence a Paróquia São Tiago localizada em Santiago do Iguape - Cachoeira. A Associação dos Remanescentes do Quilombo de São Francisco do Paraguaçu - Roqueirão (lugar de resistência aonde os capangas dos fazendeiros invadiam as casas dos moradores da comunidade para destruir as casas e expulsar as pessoas que viviam nessa localidade).Nota-se nesses locais a presença da população Ribeirinha, quitandas e meios de subsistência como a  pesca, agricultura familiar e a comercialização de mariscos.

Como guia tivemos a companhia de Carlos de Assis 52 anos, Coordenador da Associação Remanescentes Quilombola de Acupe,  também pescador e trabalhador rural, o mesmo citou que há 30 anos faz parte ativamente da Associação. Essa Comunidade Quilombola ainda não foi reconhecida, mas possuem em sua organização social terras de Usucapião e o Ministério da Cultura  através do Departamento de Proteção ao Patrimônio Afro-Brasileiro Fundação Cultural Palmares concedeu a Certidão de Autodefinição de 22 de agosto de 1988  certificando a Comunidade de Alto do Cruzeiro como se Autodefinindo como Remanescentes de Quilombo em 26 de novembro de 2007.

Uma vista marcante, porém que nos faz refletir sobre as condições atuais em que vivem Comunidades Remanescentes como essas que visitamos. Ver que a estrutura urbana em alguns lugares dessas localidades são precárias, embora isso não seja uma regra para todos os lugares. Constatar visivelmente que são locais de uma beleza impar, singular, mas que carece de escolas voltadas para Cultura Ancestral Quilombola bem como postos de saúde. A cada passo da longa caminhada por aquelas ruas cada rosto que saia nas janelas para verificar quem eram aquele grupo de estudantes em um misto de curiosidade e acolhida me fazia refletir o que estamos fazendo como Cientistas Sociais para corrobora com a manutenção do que há de mais belo nessa população especifica que é justamente a sua trajetória histórica de resistência? Como lhe dar com tantos campos de conhecimento acoplados dentro de diversidades de saberes?

São perguntas que ainda tenho respostas, mas que preencheriam páginas de livros se fossem contadas as nossas crianças desde os primeiros anos da Educação Infantil. Conheceriam a sua história, sua ancestralidade e aprenderiam a valorizar o que durante muito tempo lhes foi negado: sua autoestima. Essas palavras me fizeram lembrar de uma música cantada na voz de uma mulher negra  a saudosa Dona Ivone Lara a letra diz assim:
     

Sorriso Negro 

Um sorriso negro
Um abraço negro
Tras felicidade  
Negro sem emprego
Fica sem sossego
Negro é a raiz da liberdade
Negro é uma cor de respeito
Negro é inspiração
Negro é silencio é culto
Negro é a solidão
Negro que já foi escravo
Negro é a voz da verdade
Negro também é amor

Negro também é saudade...


Referências:

PARE, Marilene Leal; OLIVEIRA, Luana Paré de;  and  VELLOSO, Alessandra D'Aqui.A educação para quilombolas: experiências de São Miguel dos Pretos em Restinga Seca (RS) e da Comunidade Kalunga de Engenho II (GO).
Cad. CEDES[online]. 2007, vol.27, n.72, pp.215-232. ISSN 0101-3262. Disponível:  http://dx.doi.org/10.1590/S0101-32622007000200007. Acesso em 02 de outubro 2016.
Territórios remanescentes de quilombos. Disponível em:  uc.socioambiental.org/territórios-de.../territórios-remanescentes-de-quilombos. Acesso em 23/10/2016.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Representação do Negro
Personalidade Negra na Educação

Ana Célia da Silva, uma baiana de Salvador que possui graduação em Pedagogia pela Universidade Federal da Bahia (1968), mestrado em Educação pela Universidade Federal da Bahia (1988) e doutorado em Educação pela Universidade Federal da Bahia (2001). Fez curso de Especialização em Introdução aos Estudos Africanos em 1986 pelo Centro de Estudos Afro Orientais/UFBA, com duração de 640 horas. Atualmente é professora adjunta da Universidade do Estado da Bahia no Departamento de Educação, Campus I e no Mestrado em Educação e Contemporaneidade. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Currículos Específicos para Níveis e Tipos de Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: estereótipos em relação ao negro no livro didático de língua portuguesa das séries iniciais; desconstrução, representação social do negro nos livro didático de língua portuguesa das séries iniciais, e educação das relações étnico-raciais. Eleita Membro Titular do Conselho Estadual de Cultura, referendada pela Assembleia Legislativa em 18 de outubro de 2007 para compor a Câmara de Política Sócio Cultural, publicado no D. O. de 18 de outubro de 2007.

Atuante da militância no Movimento Negro Unificado (MNU), Ana Célia da Silva desenvolveu interesse por esse objeto de investigação devido a sua atividade profissional como orientadora educacional na rede pública de ensino estadual. O contato em sala de aula com crianças e jovens negros a levou a perceber um sentimento de auto-rejeição e rejeição quanto ao seu outro assemelhado étnico.  A sensação que seus alunos de pele negra tinha com relação à atitude de desvalorização e superioridade por parte dos alunos de pele branca fez com que a professora buscasse desenvolver estratégias, durante o ano letivo, de valorização da auto-estima e o auto-conceito dos seus alunos que sofriam com esse problema em sala de aula. Essa sensação de inferioridade contribuía para que os alunos de pele escura se achassem feios, sem inteligência, chegando a não gostar da cor de sua pele, de seus cabelos e a não se afirmarem como negros, e sim como morenos. A constatação desses problemas fez com que Ana Célia tentasse, embora sem êxito, buscar a ajuda de seus colegas que negavam essa situação.

A verdade é que essa realidade, de fato, existia e ainda existe em todos os ambientes da nossa sociedade, inclusive nas instituições educacionais. Os estereótipos em relação ao negro no livro didático foi um objeto de investigação que trouxe através dessa autora discussões sobre as referências maldosas e preconceituosas usadas para referendar o negro nos livros didáticos.  De acordo com Silva (1995), essas representações perversas muito contribuíram para a baixa auto-estima detectada nas pessoas de pele negra, mas essas preocupações ao contrário do que se pode imaginar não surgiram agora, e sim a partir de 1950.

De acordo com Silva (1995), essas são algumas das situações identificadas entre 1950 a 1987 nos livros didáticos: representação do negro em situação inferior à do branco, personagens negros tratados com desprezo, a raça branca sendo considerada a mais bela e a mais inteligente. Os personagens negros citados como pertencentes a um passado histórico, como não atuantes no presente e identificados como escravos e humildes. As empregadas domésticas sempre representadas por negras. A morte dos 130 soldados negros na guerra do Paraguai por terem sido abandonados aos inimigos e às doenças, provavelmente por serem negros. Materiais pedagógicos (quadro negro). O silenciamento dos professores diante de ações discriminatórias contra crianças negras. Os negros apresentados como escravos ou preto–velhos, existindo atitudes paternalistas para como eles. Na relação opressor-oprimido, o branco é o representante da espécie com atributos tidos como universais, os grupos ou multidões são majoritariamente ou exclusivamente brancos. O negro associado a personagens maus, à sujeira, à tragédia, à maldade. O branco representando os santos, os ricos, os heróis.

Após anos de luta histórica em detrimento do reconhecimento acerca das políticas públicas que de fato diminuam a desvalorização secularizada da população negra em nosso país, o Ministério da Educação através de algumas ações como: mudanças ainda que discretas nos livros didáticos, política de cotas e reconhecimento da Semana da Consciência  Negra nas escolas tanto públicas como particulares , nos levar a perceber que as mudanças no sistema educacional pensadas por autoras como Nina Lino Gomes e Ana Célia da Silva e vários outros educadores que pensam a educação como forma de resistência e combate contra o preconceito e discriminação vivenciadas pela população negra  e pobre são realidades que não estão mais distantes como antes, mas que são possíveis a medida que tratamos os meios de ensino a partir de um verdadeiro comprometimento e não apenas como uma forma de se estabelecer no mercado de trabalho por conta de um  ordenado.   


terça-feira, 27 de setembro de 2016

 Práticas discriminatórias na Educação

Personalidade negra na educação

Ainda refletindo a respeito do racismo percebi a importância de através de mulheres como Nina Lino Gomes começarmos a debater sobre as práticas discriminatórias na educação. Uma personalidade que contribuiu e continua a contribuir com a educação em todos os aspectos, entre eles as questões referentes às relações étnico-raciais e a educação. Penso em trazer outras personalidades negras atuantes no âmbito educacional em outras postagens com o intuito de corroborar com a disseminação do conhecimento e desejando que mais atores sociais aprendam e semeiem no campo da aprendizagem as sementes da conscientização e do respeito aos nossos semelhantes, independentemente da sua cor ou herança cultural, pois estas fazem relação direta com a nossa origem e a nossa história.

A partir da analise sobre até que ponto os profissionais nas instituições escolares podem e devem desenvolver ações que possibilitem aos alunos novas reflexões sobre um tema que perpassa séculos vemos que a tarefa de discutir sobre as relações étnico-raciais e as práticas de discriminação na educação não podem ser vistas como uma atividade à parte da escola, deve, portanto, ser posta em pauta também pelas instituições de ensino. Nos dias atuais não cabe mais ser vista apenas como um tema debatido entre os militantes políticos, sociólogos e antropólogos.  De acordo com Gomes (2005), tal argumento demonstra uma total incompreensão sobre a formação histórica e cultural da sociedade brasileira. 

Gomes (2005) afirma que não há como negar que a educação é um processo amplo e complexo de construção de saberes culturais e sociais que fazem parte do acontecer humano. Porém, não é contraditório que tantos educadores concordem com essa afirmação e, ao mesmo tempo, neguem o papel da escola no trato com a diversidade étnico-racial? Como podemos pensar a escola brasileira, principalmente a pública, descolada das relações raciais que fazem parte da construção histórica, cultural e social desse país? E como podemos pensar as relações raciais fora do conjunto das relações sociais?

É preciso que os(as) educadores(as) compreendam que o processo educacional também é formado por dimensões como a ética, as diferentes identidades, a diversidade, a sexualidade, a cultura, as relações raciais, entre outras. E trabalhar com essas dimensões não significa transformá-las em conteúdos escolares ou temas transversais, mas ter a sensibilidade para perceber como esses processos constituintes da formação humana se manifestam na nossa vida e no próprio cotidiano escolar.

Seria radical de nossa parte afirmar que a educação nos moldes atuais não permite ao professor(a) em sala de aula atuar como agente ativo no processo de formação humana, quando esse trabalho exige um conhecimento extenso sobre as dificuldades do nosso sistema educacional em abordar temas que ajudem aos alunos a entender as raízes que fecundaram e possibilitaram que o nosso povo não se reconhecesse também como nação descendente de povos negros, já que para tanto seria necessário uma reformulação de todos os livros didáticos que abordassem a história do nosso país tendo não só o negro, mas também o índio como sujeitos atuantes e construtores no que hoje é o Brasil.
Gomes (2005) nos aconselha que, antes de pensarmos em quais estratégias poderemos adotar para ajudar aos alunos na reflexão acerca do seu papel enquanto colaborador na luta contra as diferentes formas de discriminação vivenciadas na sociedade por qualquer pessoa que se declare afro-descendente, é importante que estejamos atentos ao seguinte ponto: se todos nós estamos de acordo com a necessidade de se desenvolver estratégias de combate ao racismo na escola, concordamos com o fato de que o racismo existe na sociedade brasileira. E mais, concordamos que racismo está presente na escola brasileira. Esse é um ponto importante porque rompe com a hipocrisia da nossa sociedade diante da situação da população negra e mestiça desse país e exige um posicionamento dos(as) educadores(as).

Essa constatação também contribui para desmascarar a ambiguidade do racismo brasileiro que se manifesta através do histórico afirmação/negação. No Brasil, o racismo ainda é insistentemente negado no discurso do brasileiro, mas se mantém presente nos sistemas de valores que regem o comportamento da nossa sociedade, expressando-se através das mais diversas práticas sociais. Essa ambiguidade também pode ser vista no discurso e na prática dos(as) professores(as). Uma melhor compreensão sobre o que é o racismo e seus desdobramentos poderia ser um dos caminhos para se pensar estratégias de combate ao racismo na educação, auxiliando os(as) educadores(as) a compreenderem a especificidade do racismo brasileiro e a identificar o que é uma prática racista e quando esta acontece no interior da escola. Essa é uma discussão que deveria fazer parte do processo de formação dos professores.

Refletir sobre os valores que estão por detrás de práticas como as que citamos anteriormente nos leva a pensar que não basta apenas lermos o documento de “Pluralidade Cultural”, ou analisarmos o material didático, ou discutirmos sobre as questões curriculares presentes na escola se não tocarmos de maneira séria no campo dos valores, das representações sobre o negro, que professores(as) e alunos(as) negros, mestiços e brancos possuem. Esses valores nunca estão sozinhos. Eles, na maioria das vezes, são acompanhados de práticas que precisam ser revistas para construirmos princípios éticos e realizarmos um trabalho sério e competente com a diversidade étnico-racial na escola. É preciso abrir esse debate e tocar com força nessa questão tão delicada.

Pensar em trabalhar com a questão racial não é só promover eventos anuais ou semestrais de acordo com a disponibilidade da agenda escolar, é antes o envolvimento de toda uma estrutura educacional consciente de suas limitações, mas com vontade de formar para a sociedade cidadãos responsáveis pelas suas ações que sabem conviver e respeitar a diversidade cultural em todos os ambientes, principalmente o educacional.


Referência 

GOMES, Nilma Lino. Educação e relações raciais: Refletindo sobre algumas estratégias de atuação. IN: Superando o Racismo na escola. 2ª edição revisada / Kabengele Munanga, organizador. – [Brasília]: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização e Diversidade, 2005.
Reflexões sobre
 Raça e  Racismo
As indagações a respeito do emprego da palavra Raça prioritariamente nos leva as indagações referentes à classificação outrora ordenada pela ciência que envolve principalmente o fenótipo e as heranças culturais das civilizações, mas precisamente quando se refere à cor da pele e/ou aos costumes.

No caso do Racismo percebemos que este advém da intolerância imperialista que indivíduos possam expressar com a aspiração de menosprezar o sentimento de pertencimento de um grupo ou de vários grupos que cultivam e valorizam suas raízes.Essa realidade pode ser traduzida através de questões bem simples do cotidiano se observarmos nas relações sociais dos sujeitos como cada pessoa se refere a sua própria trajetória de vida, traçando a partir de suas experiências como são construídas suas bases morais e de resistência através das normas sociais.

Exemplos que podem ilustrar essa reflexão são os que se referem às práticas de Racismo como a comparação, o julgamento. Vejamos; Quando um sujeito sabendo que no seu grupo familiar sabe da existência de pessoas com a cor da pele preta e os cabelos crespos entre outras qualidades que expressam através do fenótipo as características próprias da pessoa negra, mas para evitar que seus conhecidos o identifiquem como este sendo uma pessoa pertencente à cultura negra logo assume diante dos outros indivíduos seu posicionamento como descendente de pessoas apenas brancas. Nesse caso exaltando as qualidades que este fenótipo lhe oferece em contra partida ao que sua herança física negra lhe proporciona.

Entretanto não estou a afirmar que existe o racismo apenas no que se refere a indivíduos de cor de pele diferentes, pois a prática racista abrange não somente a cor, mas também aos costumes e as práticas próprias de cada grupo cultural. No caso do racismo não se tenta dizimar, excluir e destruir tão somente o sujeito, mas toda sua herança perpassada através de séculos.  

domingo, 25 de setembro de 2016

Indicação de Filme


O filme 12 anos de Escravidão de 2013, dirigido por Steve McQueen. Mostra uma perspectiva sobre a escravidão nos Estados Unidos. É uma leitura acerca das configurações em que se desdobravam o sistema escravista nas Américas e no mundo, é como tentar entender como as classes dominantes se constituíram como senhores dominadores das classes excludentes e segregadas a humilhação e a pobreza antes nas senzalas e contemporaneamente das favelas. Verdade que a escravidão de antes era mais deprimente do que a dos dias atuais em que as Políticas Públicas de Reparação tentam minimizar os efeitos que perduraram durante séculos e que jamais em tempo algum serão  apagados da memoria dos povos  que foram tirados  a força pelas mãos de seus opressores de suas terras e seus lares para se submeterem a toda crueldade e maus tratos.
Sobre o filme
O filme Doze Anos de Escravidão retrata a dolorosa sobrevivência de toda uma geração de descendentes africanos em terras estrangeiras, os massacres, os estupros, os assassinatos, a exploração e a comparação que se tinha do negro aos animais, aos selvagens sem direito algum. A elite predominantemente ditas como raça pura e branca julgava – se escolhida por Deus para dominarem o mundo e subjugarem através da força de sua ambição as raças inferiores desde a formação da sociedade.
Mas o que dizer então de uma descrição tão densa sobre um pouco do que foi a escravidão no Brasil e no mundo se as marcas daquelas chibatadas as quais eram castigadas nosso povo ainda ardem e doem muito na alma de cada homem ou mulher livre que assistem um filme como esse e ver a realidade que se passou com nossos antepassados? O que posso dizer se não que as marcas dos chicotes, e as mutilações sofridas  ainda doem.
O ser humano preso a um tronco gemendo e implorando por uma vida que nem ao menos sabia se valia a pena junto a um sentimento de abandono que não poderia ser medido, pois não tinha tamanho.  Ainda bem que o sol que nasce para uns, nasce também para todos e com essa afirmação quero expressar que as correntes que um dia trancafiaram a nossa dignidade quanto seres humanos iguais a qualquer um foram soltas em consequência da luta incessante de muitos homens e mulheres que tiveram suas famílias dizimadas, separadas e vendidas tais como se negociavam animais.
Todas as formas de escravidão são deploráveis a qualquer sociedade que almeje um desenvolvimento igualitário, antes era usada a palavra escravidão, hoje é usada a nomenclatura tráfico humano e as pessoas sejam elas negras ou não continuam sendo vendidas como se fossem objetos em exposição. Acredito que as leis precisam de fato proteger e preservar o ser humano quer este esteja em situação vulnerável ou não, pois não há nenhuma justificativa que possa algum dia legitimar ações que minimizem a altura própria do outro seja este quem for, todos nós merecemos respeito e precisamos aprender a lutar e a exercer nossos direitos como cidadãos.