VISITA AO QUILOMBO
A Educação formal veicula um
tipo de conhecimento desconsiderando e invalidando outros
saberes. Reconhecendo como legitimo apenas a cultura escrita uma característica
própria do racionalismo. Assim todas as instituições de ensino possuem moral,
ética e valores que são construções sociais.
Mas pensando nas categorias
que acoplam varias culturas em sua moldagem a exemplo da: língua e
fenótipo, percebemos que esse padrão
estabelecido para normatização da Educação formal é contraditório a ideia da diversidade e não responde a
questões como: qual a maneira mais adequada de tratar a diversidade
populacional e cultural existente nas
comunidades e grupos que compõe a população brasileira se cada comunidade e/ou
grupo possuem suas particularidades baseadas no conhecimento adquirido a partir
de suas trajetórias históricas?
Não considerar os saberes
acumulados a ponto de rotular os mesmos como menos importante do que já foi
reconhecido através da cultura escrita torna – se um perigo no que diz respeito
a não valorização das potencialidades
relacionadas a construção do conhecimento, principalmente quando se fala em
conceitos sociológicos que dizem respeitos a auto-afirmação, identidade,
valorização da auto-estima, pertencimento.
Ao visitar o Quilombo observei
o quanto da nossa história enquanto população brasileira ainda não foi contada
e foi escondida através de contos construídos a fim de padronizar a população
brasileira. Talvez a intenção fosse justamente não permitir que os sujeitos se
fortalecessem junto as suas potencialidades oriundas de suas próprias raízes.
A escrita dessa postagem não possui a
intencionalidade de fazer juz ao descobrimento das verdades que nos foram
escondidas, pois mesmo que tentasse não conseguiria escrever todo aprendizado
dessa experiência singular ao visitar esse espaço de construção e valorização
do conhecimento vivenciado, experienciado pelas lentes do campo. Porém dentre
alguns recortes buscarei relatar as observações alcançadas durante a visita.
Atualmente se você perguntar a uma criança de dez anos de idade que frequenta uma escola e cursa o 5º ano do Ensino Fundamental e que nunca visitou uma Comunidade Quilombola sobre o que ela pensa ser um Quilombo possa ser que a mesma responda baseada em uma rápida pesquisa no Google e descreva um Quilombo como uma das figuras que estão nas imagens mostradas dessa forma:

Atualmente se você perguntar a uma criança de dez anos de idade que frequenta uma escola e cursa o 5º ano do Ensino Fundamental e que nunca visitou uma Comunidade Quilombola sobre o que ela pensa ser um Quilombo possa ser que a mesma responda baseada em uma rápida pesquisa no Google e descreva um Quilombo como uma das figuras que estão nas imagens mostradas dessa forma:


Mas se ao invés das imagens mostradas acima mostrássemos imagens como essas:
Fonte: acervo pessoal, 2016. Santiago do Iguape - Cachoreira
Fonte: acervo pessoal, 2016. São Francisco do Paraguaçu - Roqueirão
Fonte: visita de campo, 2016. Convento Santo Antonio/ São Francisco do Paraguaçu
Fonte: visita de campo, 2016. Santiago do Iguape - Cachoeira
Fonte: visita de campo, 2016. Alto do Cruzeiro - Acúpe - Santo Amaro
Fonte: visita de campo, 2016. Alto do Cruzeiro - Acúpe - Santo Amaro
Fonte: acervo pessoal, 2016. São Francisco do Paraguaçu - Roqueirão
Fonte: acervo pessoal, 2016. São Francisco do Paraguaçu - Roqueirão
Fonte: visita de campo, 2016. Alto do Cruzeiro - Acúpe - Santo Amaro
Fonte: visita de campo, 2016. Santiago do Iguape - Cachoeira
De acordo com as autoras PARÉ,OLIVEIRA e VELLOSO os pontos cruciais dessas lutas dizem respeito a:
- Reconhecimento oficial pelo estado brasileiro que aconteceu em 1988 (um século após o fim da escravidão)
- Afirmação dos direitos territoriais
- Inserção cidadã
- O fazer pedagógico junto a comunidade quilombola
- Sistema de autonomia e interdependência
- Construção sociocultural adaptada ao meio
- Valorização do ensino formal na comunidade quilombola
- Autoestima dos alunos quilombolas (como eles se sentem?)
Luta que tem como bandeira pilares como:
- Resistência Negra
- Manutenção da tradição
- Vínculos de parentescos (unicidade familiar, percepção de pertencimento a troncos familiar específicos)
- Transmissão dos conhecimentos adquiridos (aprendizado cotidiano a partir da experiência dos mais velhos)
- Dialogo entre diferentes saberes
Visitamos lugares como: Convento Santo Antonio e São Francisco do Paraguaçu que pertence a Paróquia São Tiago localizada em Santiago do Iguape - Cachoeira. A Associação dos Remanescentes do Quilombo de São Francisco do Paraguaçu - Roqueirão (lugar de resistência aonde os capangas dos fazendeiros invadiam as casas dos moradores da comunidade para destruir as casas e expulsar as pessoas que viviam nessa localidade).Nota-se nesses locais a presença da população Ribeirinha, quitandas e meios de subsistência como a pesca, agricultura familiar e a comercialização de mariscos.
Como guia tivemos a companhia de Carlos de Assis 52 anos, Coordenador da Associação Remanescentes Quilombola de Acupe, também pescador e trabalhador rural, o mesmo citou que há 30 anos faz parte ativamente da Associação. Essa Comunidade Quilombola ainda não foi reconhecida, mas possuem em sua organização social terras de Usucapião e o Ministério da Cultura através do Departamento de Proteção ao Patrimônio Afro-Brasileiro Fundação Cultural Palmares concedeu a Certidão de Autodefinição de 22 de agosto de 1988 certificando a Comunidade de Alto do Cruzeiro como se Autodefinindo como Remanescentes de Quilombo em 26 de novembro de 2007.
Uma vista marcante, porém que nos faz refletir sobre as condições atuais em que vivem Comunidades Remanescentes como essas que visitamos. Ver que a estrutura urbana em alguns lugares dessas localidades são precárias, embora isso não seja uma regra para todos os lugares. Constatar visivelmente que são locais de uma beleza impar, singular, mas que carece de escolas voltadas para Cultura Ancestral Quilombola bem como postos de saúde. A cada passo da longa caminhada por aquelas ruas cada rosto que saia nas janelas para verificar quem eram aquele grupo de estudantes em um misto de curiosidade e acolhida me fazia refletir o que estamos fazendo como Cientistas Sociais para corrobora com a manutenção do que há de mais belo nessa população especifica que é justamente a sua trajetória histórica de resistência? Como lhe dar com tantos campos de conhecimento acoplados dentro de diversidades de saberes?
São perguntas que ainda tenho respostas, mas que preencheriam páginas de livros se fossem contadas as nossas crianças desde os primeiros anos da Educação Infantil. Conheceriam a sua história, sua ancestralidade e aprenderiam a valorizar o que durante muito tempo lhes foi negado: sua autoestima. Essas palavras me fizeram lembrar de uma música cantada na voz de uma mulher negra a saudosa Dona Ivone Lara a letra diz assim:
Sorriso Negro
Um sorriso
negro
Um abraço
negro
Tras felicidade
Negro sem
emprego
Fica sem sossego
Negro é a raiz da liberdade
Negro é uma cor de respeito
Negro é inspiração
Negro é silencio é culto
Negro é a solidão
Negro que já foi escravo
Negro é a voz da verdade
Negro também é amor
Negro também é saudade...
Referências:
PARE, Marilene Leal; OLIVEIRA, Luana Paré de; and VELLOSO, Alessandra D'Aqui.A educação para quilombolas: experiências de São Miguel dos Pretos em Restinga Seca (RS) e da Comunidade Kalunga de Engenho II (GO).
PARE, Marilene Leal; OLIVEIRA, Luana Paré de; and VELLOSO, Alessandra D'Aqui.A educação para quilombolas: experiências de São Miguel dos Pretos em Restinga Seca (RS) e da Comunidade Kalunga de Engenho II (GO).
Cad. CEDES[online]. 2007, vol.27, n.72, pp.215-232. ISSN
0101-3262. Disponível: http://dx.doi.org/10.1590/S0101-32622007000200007. Acesso em 02 de outubro 2016.
Territórios
remanescentes de quilombos. Disponível em:
uc.socioambiental.org/territórios-de.../territórios-remanescentes-de-quilombos.
Acesso em 23/10/2016.










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